segunda-feira, 30 de março de 2015

O que é um texto filosófico: caracterização e condições



Autor: William Michaell dos Santos Torquato
Contato: williamnesia@gmail.com
     

        Antes de partirmos para a explicitação do conceito de texto filosófico, considero importante levantar a definição de uma classe mais geral e que abarca esse predicamento: a definição de Texto. Dessa forma, cabe a mim perguntar: o que significa texto? Significa que um simples amontoado de palavras não se encaixa na categoria "texto" se não possuir um sentido. Para encontrarmos o sentido, é preciso prestar atenção ao contexto cujas palavras, frases e parágrafos estão sendo utilizados. Além disso, há a necessidade de um conhecimento de mundo, através de nossas experiências em sociedade, para compreendermos com mais atenção as dimensões lógica e psicológica das palavras, lógica porque "é o seu conteúdo de pensamento, que pode ser expresso em sua definição conforme o dicionário"[1] e psicológica por causa das "imagens relacionadas, as nuanças e a emoção espontaneamente associada às palavras",[2] evitando-se cair em ambiguidades, porque cada palavra vem carregada com um sentido individual que, quando relacionada com outras, criam um outro sentido. Isso também se aplica às frases e aos parágrafos. Essa correspondência entre as ideias do texto, intencionalmente, é chamada de Coerência. A Coesão, por sua vez, pretende estar em harmonia com a Coerência, dando ao texto as articulações e ligações necessárias entre suas diferentes partes, ou seja, lógico-semântica, promovendo a transição fluida das ideias para que a mensagem do autor seja passada. Essa harmonia entre a coerência e a coesão nos mostra que o caminho percorrido até aqui trouxe mais uma característica de conceituação de um texto, ou seja: o texto transmite uma mensagem outrora intencionada pelo autor e direcionada ao leitor. Isso deixa claro que também há maneiras de escrever que dependem desse leitor. Vejamos um exemplo simples: um texto introdutório pressupõe primordialmente leitores que não estão familiarizados com aquele determinado assunto, de modo contrário, textos concebidos com mais densidade e com maior número de termos técnicos são voltados para pessoas que já passaram pela fase de introdução e dominam melhor o assunto — isso nada impede que um leitor em fase de introdução, se desejar, leia um livro mais avançado, no entanto, as chances desse leitor conseguir absorver algum conhecimento são imensamente pequenas. Por fim, não sendo mais necessário prolongar o assunto em questão, encerro este breve conceito de texto e me disponho a explicitar uma de suas categorias, por assim dizer, que é: o texto filosófico. Porém, não será uma das tarefas mais fáceis, e certamente irá requerer extremo cuidado de minha parte, além de dedicação e honestidade. Por isso, minha pretensão é apenas a de fomentar a reflexão sobre o assunto, mas sempre caminhando em direção à verdade.
            Quando observamos os inúmeros autores durante toda a história da filosofia, como forma de encontrar um padrão ou uma semelhança em seus escritos, para que possamos vir a afirmar sem medo que aquele poderá sempre ser considerado um texto filosófico, descobrimos que existem inúmeras formas de escrever filosoficamente: poemas, diálogos, ensaios, tratados, aforismos, etc. Analisando com mais cuidado todas essas formas de escrita e afunilando ainda mais o gargalo do problema, buscando nelas aquela mesma semelhança ao qual determinamos como ponto de partida de nossa investigação, podemos vir a encontrar o ponto de convergência tão desejado. Mas o que há de semelhante em todos esses textos considerados filosóficos? Essencialmente falando, posso afirmar que o teor argumentativo e reflexivo são uns dos grandes responsáveis pela categorização de um texto como filosófico, manifestando um rigor lógico em seu desenvolvimento para ser capaz de pensar a realidade o mais próximo possível do que ela é (ou de fato é), pensando-a conceitualmente e consequentemente afastando de si particularidades que não venham somar nada, mas apenas desviar seu âmbito universal e conceitual de repensar o mundo. No entanto, os textos científicos também possuem esse caráter argumentativo e reflexivo, então como diferenciar um texto filosófico de um científico? A partir do problema. Iniciar uma investigação a partir de um problema é natural da Filosofia. Mas onde encontrar esse problema? Para a Filosofia, os problemas estão no mundo, ao redor do homem, no seu dia-a-dia, e sua investigação é estritamente teorética, além disso, são problemas comuns a todos os homens. Diferentemente, para a ciência, esses problemas não necessariamente são comuns a todos, mas em grande medida são problemas alocados em laboratórios para que um grupo seleto de pessoas (cientistas) trabalhem sobre eles, o que demonstra a diferença metodológica entre a Ciência e a Filosofia. Apesar de ambas buscarem o mesmo objetivo, não trilham exatamente o mesmo caminho até esse objetivo. Por conseguinte, é comum ouvir afirmações acerca da atividade filosófica do tipo: "o filósofo é uma coisa, sua filosofia outra", como se fossem duas coisas distintas, ao qual cada uma deveria ser analisada separadamente da outra, sem qualquer relação do modo como o filósofo vive e pensa com sua produção filosófica. Sem sombra de dúvidas os gregos repudiariam categoricamente tal afirmação, pois o ato de filosofar, para o grego, estava intrinsecamente ligado à vida do filósofo, a chamada bíos theoretikós (vida teorética ou contemplativa). Não se concebia a filosofia como algo "fora" da vida do filósofo, não para o povo grego. Arrisco-me até a afirmar que esse seja o caminho mais virtuoso em direção à Verdade, o genuíno Método Filosófico herdado de Sócrates, Platão e Aristóteles, que é animado pela atividade de viver a filosofia, em outras palavras, trazer a filosofia para o cotidiano do homem em busca de fazer florescer uma vida reflexiva e virtuosa, para viver bem tanto consigo mesmo quanto com os outros. Mas isso é um assunto para outro momento. Retornemos ao nosso problema.
            O texto filosófico, por ter como base a Filosofia, busca a compreensão da realidade tal como ela é e não somente como se apresenta, expondo ao leitor uma determinada tese defendida pelo autor, que não necessariamente estará limitada ao rigor técnico, mas também estará fundamentada numa pessoalidade[3] específica de cada autor, suas experiências e sua própria visão da realidade como um todo e em como ela o afetará, permitindo que suas vivências dessa realidade possam vir à tona como uma cosmovisão inalienável. Isso não quer dizer que ele estará mergulhando em puro subjetivismo em cada momento de reflexão, espalhando ideias como se escrevesse um diário, muito pelo contrário, estará tomando para si o problema de tal forma que sua argumentação e reflexão servirão para lapidar esse apropriamento da problemática, impedindo que o autor caia, ou venha a cair, em contradições ou confusões, fugindo do problema que ele estava a tratar e da própria realidade. Portanto, da mesma forma que o texto filosófico necessita partir de um problema, como também refletir sobre esse problema e, por fim, dar argumentos que justifiquem o seu ponto de vista sobre esse problema, é de suma importância que o filósofo não seja escravo dessa cultura tecnicista exagerada para produzir bons textos, sendo capaz de encarar o problema com essa pessoalidade que é comum a todos os homens (mas nem todos exercitam) e que talvez venha até a se transformar em originalidade — que não é necessariamente uma obrigação do estudioso, visto que o conceito de filósofo, concretizado nas imagens  de Sócrates, Platão e Aristóteles, e humildemente definido por Pitágoras, nunca tencionou ser original, mas alcançou tal façanha como consequência da busca pela verdade, uma busca que a contemporaneidade necessita resgatar urgentemente dos clássicos.
            Por conseguinte, quando partimos para o âmbito geopolítico e social, como meio de analisar se são importantes do ponto de vista do texto filosófico, tendemos a cair nas afirmações de que são sempre condições para que enxerguemos o mundo sob suas influências, o que não é necessariamente verdade. Expressemos isso com um exemplo: um estudioso brasileiro não está impedido de escrever filosoficamente sobre os problemas político-religiosos que existem há anos entre Israel e Palestina, dois países que vivem uma situação totalmente distinta do Brasil, sem que o seu texto seja desconsiderado porque não foi escrito sob as bases dos problemas político-religiosos do autor. O mesmo ocorre se ele resolver escrever sobre a escravidão em outros países, que apesar de ter feito parte da cultura brasileira por muitos anos, não corresponde mais à realidade atual do país e a dele mesmo. Fica evidente, analisando por esse ângulo, que mesmo que tais fatores tenham grande peso sobre nossa forma de encarar a realidade, não é correto afirmar que todo texto filosófico será escrito tendo como base esses fatores, porque estaríamos reduzindo a liberdade da filosofia de pensar a realidade além deles, a particularidades muito apequenadas, senão isoladas. Entretanto, é possível usar essas particularidades como ponto de partida de uma investigação teórica que mais tarde poderá ser ampla e profunda, refletindo o problema em sua complexidade plena, para então construir um caminho até o objetivo desejado. Tomando isso como premissa, os fatores sociais e políticos apresentam sua contribuição para o texto filosófico porque são problemas que o autor viveu, vive ou talvez viverá, e como experiências de vida, estão aptos a serem usados como meios (ou fins, visto que o filósofo busca resolver o problema que se pôs a investigar, sendo ele, o problema, o foco de todo o trabalho) de uma construção textual filosófica profunda.
            Por fim, é preciso ressaltar que, mesmo com tudo o que foi dito até aqui, um texto considerado filosófico pode simplesmente não despertar inquietação nenhuma em determinado leitor, passando a ser encarado apenas como um texto histórico, científico, pedagógico, ou de qualquer outro tipo. Esse fato em específico leva mais em consideração o próprio leitor, que diante de um texto considerado filosófico não terá em si a vivência daquilo que o texto minimamente exige para que seja compreendido e assimilado, ao ponto de despertar o desejo de refletir o que está sendo lido. Evidentemente nos colocamos diante de uma condição para que um texto seja classificado como filosófico: a compreensão, assimilação e a incitação da reflexão do que está sendo proposto no texto por parte do leitor. Ora, certamente os filósofos escreveram seus textos com a intenção de que fossem lidos, dando abertura para serem estudados e, consequentemente, refutados ou corroborados. Alguns desses autores foram seletivos em quem deveria ler seus textos, escrevendo de forma "truncada" como Kant e Heidegger, muitas vezes obscuras como Heráclito de Éfeso, pois analisavam determinado problema com todo o rigor lógico, argumentativo e linguístico exigido pela razão em todos os ângulos permitidos, tanto por ele mesmo, quanto pelo problema, ocasionando numa dificuldade natural para quem se propunha a lê-los despreparadamente, já que nem todos estão prontos filosoficamente para compreender os conceitos usados naquele determinado texto, exigindo do leitor uma carga de leitura suficiente para assimilar com mais facilidade o conteúdo. Além disso está o modo de vida do filósofo, citado acima, que transfere para o texto as vivências do filósofo.
            Eis aí possíveis caracterizações e condições para definirmos o que é um texto filosófico. Dessa forma, a definição se mostra extremamente complicada de ser objetivada concretamente, mas não está livre de reflexão, está sim apta a incitar o leitor a se embrenhar cada vez mais no pensamento usando o próprio pensamento para buscar respostas, pois afinal de contas, parafraseando Mário Ferreira dos Santos, o pensamento é a única arma que o filósofo tem para enfrentar as dificuldades da realidade. Por fim, finalizo minha reflexão sobre texto filosófico sendo fiel a minha pretensão inicial: fomentar a reflexão sobre o assunto, caminhando sempre em direção à verdade.


[1] Irmã Miriam Joseph, O Trivium. São Paulo, É Realizações, 2014, p. 54.
[2] Ibidem, p. 55.
[3] Essa pessoalidade se refere à capacidade que cada homem tem de, a partir de suas vivências, refletir sobre a realidade (realidade → homem) e transferir essas reflexões de volta para a realidade como uma cosmovisão expressa em uma teoria (realidade ← homem).

*As ideias e informações contidas neste artigo são de total responsabilidade do seu autor.

2 comentários:

  1. Obrigado, por me fazer entender de forma filosófica o sentido do texto filosófico.Amei!

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  2. Obrigado, por me fazer entender de forma filosófica o sentido do texto filosófico.Amei!

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